Como falar sobre deficiência com as crianças? Um guia para ensinar inclusão desde cedo.
“Por que ele fala diferente?”
“Por que ela usa cadeira de rodas?”
“Por que o rosto dele é diferente?”
“Por que aquela criança não consegue andar?”
Perguntas assim fazem parte da infância. As crianças observam o mundo, percebem diferenças e tentam entender aquilo que ainda não conhecem.
E, nesses momentos, nós, adultos, temos uma oportunidade preciosa: ensinar que ser diferente não é algo errado.
Muitas vezes, a criança não está sendo preconceituosa. Ela está apenas sendo curiosa.
O preconceito pode aparecer quando ensinamos que determinada diferença deve ser escondida, ignorada ou motivo de vergonha.
Por isso, em vez de dizer “não olha”, “não fala isso” ou “é feio perguntar”, podemos transformar a curiosidade em uma conversa sobre respeito, empatia e inclusão.
A primeira coisa: não tenha medo da pergunta
Quando uma criança pergunta sobre uma pessoa com deficiência, não precisamos ficar constrangidos.
Podemos responder com naturalidade.
Uma explicação simples já pode ser suficiente:
“Você percebeu que ela é diferente, né? Cada pessoa tem características diferentes. Algumas pessoas têm uma deficiência e podem precisar de mais ajuda ou de algumas adaptações para fazer determinadas coisas.”
E podemos continuar:
“Mas ela também é uma criança. Ela pode gostar de brincar, rir, aprender, conversar e fazer amigos, assim como você.”
A mensagem principal é simples:
A deficiência é uma parte da pessoa. Não é tudo o que ela é.
“Mas por que ele é diferente?”
Essa é uma das perguntas mais comuns.
Podemos explicar:
“O corpo e o cérebro de cada pessoa funcionam de um jeito. Algumas pessoas nascem ou passam a ter uma deficiência e, por isso, algumas coisas podem ser mais difíceis para elas. Mas isso não significa que elas sejam menos importantes ou menos capazes.”
Não precisamos transformar a resposta em uma aula.
Crianças aprendem aos poucos. O mais importante é criar uma referência de respeito e naturalidade.
Quando a criança pergunta sobre síndrome de Down
Se ela perguntar:
“Por que ele tem o rosto diferente?”
Podemos responder:
“Ele tem síndrome de Down. Pessoas com síndrome de Down podem ter algumas características físicas diferentes e também podem aprender algumas coisas de uma maneira ou em um tempo diferente. Mas ele é uma criança como você, com seus próprios gostos, sentimentos, personalidade e sonhos.”
E podemos aproveitar para ensinar algo importante:
“Ter síndrome de Down não significa que todas as pessoas com síndrome de Down sejam iguais. Cada pessoa é única.”
Isso vale para qualquer deficiência.
Não devemos transformar uma característica em um rótulo que define toda a pessoa.
“Ele não consegue fazer isso?”
Nem sempre.
Uma das melhores formas de ensinar inclusão é mostrar para a criança que fazer de uma maneira diferente não significa não conseguir.
Se ela disser:
“Ele não pode brincar porque usa cadeira de rodas.”
Podemos responder:
“Ele pode brincar, sim. Talvez precise de uma adaptação ou de uma maneira diferente de participar.”
Se perguntar:
“Ela não consegue falar?”
Podemos dizer:
“Ela pode se comunicar de outras formas. Algumas pessoas falam, outras usam sinais, imagens, aparelhos ou outros recursos.”
Assim, ensinamos uma ideia fundamental:
Diferença não é sinônimo de incapacidade.
Ensine também como ajudar
Existe uma diferença importante entre ajudar alguém e decidir por alguém.
Podemos ensinar nossos filhos a perguntar:
“Você quer ajuda?”
Em vez de simplesmente fazer pela pessoa.
Isso é especialmente importante porque pessoas com deficiência também têm autonomia, escolhas e preferências.
A ajuda deve acontecer quando é necessária e, sempre que possível, com respeito à vontade da própria pessoa.
“Por que ele anda assim?”
Podemos responder de forma simples:
“O corpo dele funciona de um jeito diferente. Por isso, ele pode andar de uma maneira diferente da nossa.”
Não precisamos usar palavras difíceis.
E também não precisamos dizer que a pessoa “anda errado”.
Ela simplesmente anda de outra maneira.
A linguagem que usamos ensina a criança a enxergar o mundo.
Não ensine seu filho a esconder a diferença
Quando uma criança aponta ou faz uma pergunta, é comum o adulto dizer:
“Não aponta!”
“Não fica olhando!”
“Não fala isso!”
A intenção geralmente é boa: queremos ensinar educação.
Mas, se sempre fazemos isso, a criança pode aprender que a deficiência é um assunto proibido ou algo de que devemos ter vergonha.
Podemos ensinar outra coisa:
“Você pode ter curiosidade. Mas não precisamos apontar, rir ou falar sobre a pessoa como se ela não estivesse ali.”
E então podemos ensinar a melhor alternativa:
“Se você quiser conhecer alguém, pode conversar com ela.”
Curiosidade não precisa virar preconceito
Imagine uma criança dizendo:
“Ele é estranho.”
Esse é um ótimo momento para ensinar.
Em vez de apenas repreender:
“Não diga isso!”
Podemos explicar:
“Ele é diferente de você em algumas coisas. Mas diferente não significa estranho ou pior. Existem muitas maneiras de ser, de aprender e de fazer as coisas.”
A criança não precisa ser culpada por ainda não saber.
Ela precisa ser ensinada.
O que devemos evitar dizer?
Algumas frases parecem inofensivas, mas podem ensinar uma visão equivocada sobre a deficiência.
Evite:
- “Coitadinho.”
- “Ele sofre muito.”
- “Ela não consegue fazer nada sozinha.”
- “Ele é doentinho.”
- “Não olha.”
- “Não pergunta.”
- “Ela é especial porque Deus quis assim.”
- “Ele é um exemplo de superação.”
Prefira:
- “Ele faz algumas coisas de uma maneira diferente.”
- “Ela pode precisar de uma adaptação.”
- “Vamos perguntar se ele precisa de ajuda.”
- “Cada pessoa tem suas próprias características.”
- “Ela pode participar também.”
- “Vamos conversar com ela.”
E, principalmente:
Converse com a criança sobre a pessoa, não apenas sobre a deficiência.
Ensine seus filhos a enxergar a pessoa antes da deficiência
Uma criança com deficiência não é apenas “a criança da cadeira de rodas”.
Não é apenas “o menino com Down”.
Não é apenas “a menina autista”.
Ela é uma criança.
Pode ser divertida, tímida, carinhosa, bagunceira, inteligente, criativa, apaixonada por música, futebol, desenhos, animais ou qualquer outra coisa.
Ela tem preferências.
Tem personalidade.
Tem sonhos.
Tem dias bons e dias difíceis.
Como qualquer outra criança.
Por isso, uma das maiores lições que podemos ensinar é:
“A deficiência é uma parte da pessoa, mas não define quem ela é.”
Inclusão começa nas pequenas atitudes
Ensinar inclusão não precisa acontecer apenas em grandes conversas.
Ela pode aparecer no dia a dia:
Na escola.
No parquinho.
Em uma festa.
Em um aniversário.
Em um passeio.
Na escolha dos desenhos e livros.
Nas brincadeiras.
Nas amizades.
Quando uma criança com deficiência está presente, incentive seu filho a incluí-la na brincadeira.
Não diga:
“Ela não vai conseguir.”
Pergunte:
“Como podemos fazer para que ela participe?”
Essa pequena mudança de pergunta pode transformar a maneira como uma criança enxerga o mundo.
Não queremos ensinar apenas a tolerar
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes.
Não queremos ensinar nossas crianças apenas a tolerar quem é diferente.
Queremos ensinar a respeitar, conviver, incluir e valorizar.
Porque inclusão não é simplesmente dizer:
“Eu deixo você ficar aqui.”
Inclusão é dizer:
“Eu quero que você esteja aqui.”
É abrir espaço na brincadeira.
É adaptar quando necessário.
É ouvir.
É respeitar o tempo do outro.
É não transformar a diferença em motivo de piada.
É entender que cada pessoa pode contribuir de uma maneira diferente.
E quando você não souber o que responder?
Tudo bem.
Você pode dizer:
“Eu não sei exatamente, mas podemos descobrir juntos.”
Pais não precisam ter todas as respostas.
O mais importante é não transformar a dúvida em vergonha.
Porque crianças que aprendem que podem fazer perguntas com respeito têm mais chances de se tornarem adultos que sabem conviver com as diferenças.
Para lembrar
Não tenha medo das perguntas das crianças.
Use cada pergunta como uma oportunidade de ensinar:
diferenças existem.
diferenças merecem respeito.
e nenhuma diferença diminui o valor de uma pessoa.
A inclusão começa quando ensinamos nossas crianças que o mundo não precisa ser feito de pessoas iguais.
Ele precisa ser um lugar onde todos possam pertencer.


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